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Eu estava lá!

Sábado, 16 de fevereiro de 2008, um dia como outro qualquer. Eu estava em São Paulo, trabalhando. Naquele dia comum uma coisa estava me tirando o sono: o jogo do Flamengo contra o Vasco, semifinal da Taça Guanabara. A expectativa para o domingo era de casa cheia no Maracanã. Eu queria muito assistir ao jogo. Procurei bares, lanchonetes e não encontrei um só lugar que fosse transmitir a decisão carioca pela TV.

Eis que me surge a idéia de viajar ao Rio de Janeiro para vê o jogo. Logicamente descartei-a de imediato. Ainda que fosse um jogo qualquer, mas era um Flamengo e Vasco. Um clássico diferente que tem vários ingredientes de violência e fanatismo. Sem contar que o último encontro entre os times ficou marcado pela morte de um torcedor rubro-negro. Ameaças e provocações já corriam a internet. Dá medo até de pensar.

Mas naquela noite não consegui dormir. As horas não passavam. O corpo enlouqueceu, dei até febre. Uma estranha sensação dominava minha alma. Sabe aqueles fantasminhas que aparecem nos desenhos de Tom & Jerry? Eles estavam lá, um em cada ombro. Foi uma noite longa. Razão e emoção travavam um duelo sem regras. O relógio já marcava 04:30h quando tomei a decisão: eu ia para o jogo.

Mas ir com quem? Nem adiantava chamar meus amigos, sabia que nenhum iria. Passaram o dia anterior me convencendo da idiotice que era viajar para vê o Flamengo perder. De comboio também não é bom negócio. Emboscadas sempre ocorrem com as organizadas. O negócio era pegar a estrada sozinho. Para não acordar ninguém, nem me dei o trabalho de tomar café-da-manhã. Lavei o rosto, escovei os dentes e me mandei às 05:00h.

São Paulo ainda estava escura. Mais fria que o normal. Para chegar ao metrô na Estação São Bento tive que atravessar o viaduto Santa Ifigênia até a praça do mosteiro. Eu tremia muito, acho que era uma mistura de frio e medo. Aquela altura, a idéia de viajar, sozinho, para o Rio de Janeiro, única e exclusivamente pelo Flamengo, não me pareceu muito inteligente. Porém era tarde pra desistir. Minha honra também estava em jogo.

Na estação do metrô havia pouca gente. Peguei a linha sentido Jabacuara-Tucuruví e desci na estação Portuguesa-Tietê, ponto da Rodoviária de São Paulo. Comprei uma passagem para às 06:00h. Fui para o portão e o ônibus saiu pontualmente. O trajeto São Paulo-Rio dura exatas seis horas e é muito interessante. A geografia acidentada me chamou atenção, deve ter dado muito trabalho cortar todas aquelas serras para construir a Via Dutra. É incrível o número de fábricas, restaurantes, hotéis e fazendas. Quase não existe trecho desocupado.

Cheguei ao Rio ao meio-dia. A rodoviária carioca é uma bagunça: gente de tudo que é jeito, de todas as cores e estilos. Pertinho existe uma parada final de ônibus coletivo. Peguei o 266 que me deixou ao lado do Maracanã. O jogo era às 16:00h, mas meu medo era descer do lado da torcida vascaína, o que acabou acontecendo. Discretamente comprei por R$40 meu ingresso para a arquibancada setor branco e dei toda a volta no estádio. A entrada da torcida, digamos, neutra, é na frente do Maracanã, ao lado da estátua do Belline.

O portão só iria abrir às 14:00h, então me encostei num vendedor de cerveja e fiquei tirando onda de ambulante.

- Quem vai querer?! Quem vai querer?! Cerveja geladinha, só três real.

O cara me contou que no jogo Fluminense e Botafogo, que havia acontecido no dia anterior, o pau tinha quebrado. Fiquei triplamente desconfiado. E começou a chegar gente e mais gente, cada um mais maluco que outro. O cheiro de maconha rolava pelo ar, mas havia alguns policiais montados a cavalo e outros andando pela calçada. Não vi brigas nem confusões.

Peguei logo a fila e fui um dos primeiros a entrar no estádio. Fiquei bem na linha central do gramado, no fundo, perto das cabines de rádio. Fazia um calor terrível, na premilinar os garotos de Vasco e Fluminense se matavam em campo. Apesar da arquibancada branca ser neutra, a predominância absoluta era rubro-negra.

De maneira geral, o lado esquerdo é da torcida organizada do Vasco e o direito da organizada do Flamengo. Mas a primeira a chegar foi a cruzmaltina. A torcida estava bem compacta, ocupava cerca de 30% do Mário Filho. É uma galera que merece respeito, elas cantam muito forte e chamaram atenção com bandeiras e letreiros em homenagem ao Edmundo, a grande esperança deles para vencer o Mengão.

Mas quando a Raça Rubro-Negra chegou, putz, o estádio veio abaixo. Os caras não param um segundo sequer, incrível. Na preliminar o Vasco perdeu nos pênaltis. A essa hora a torcida do Mengão já lotava tudo, mais de 62 mil pessoas cantando clássicos da história de conquistas rubro-negras. Entoavam também várias músicas novas que eu não conhecia. Quando o time entrou em campo foi uma explosão: balões brancos, amarelos, muitas bandeiras, camisão gigante estendido. Cada jogador teve seu nome cantado.

E começa o jogo. O Fla jogava melhor, até que saiu o gol do Vasco. Mas antes de terminar o primeiro tempo, o xerifão Fábio Luciano empatou. No intervalo a torcida não parou, cantava o tempo todo:

- Ôôô vamos virar mengô! Ôôô vamos virar mengô!

No segundo tempo, pênalti pro Vasco. Edmundo na cobrança, logo ele. Bruno defende. A torcida explodiu:

- Puta que pariu, é o melhor goleiro do Brasil, Bruno!

Daí pra frente só deu Flamengo, até que o Ronaldo Angelim virou o jogo. O estádio tremeu. Eu nunca tinha visto nada parecido. Todo mundo pulando, gritando, cantando, papéis, fogos, bandeiras, balões, histeria completa. Foi um momento que transcende qualquer narração, um show inexplicável.

- A torcida do Flamengo é assombrosa, disse um turista gaúcho embasbacado.

Depois foi só festa. O jogo terminou e a torcida não ia embora. O momento mais engraçado foi quando os jogadores foram comemorar com a torcida e dançaram o "funk do créu". Acho que fui o único que não dancei, todo estádio fez a dancinha ordinária. Engraçadíssimo.

Esperei um pouco até sair do estádio. Parece um rio de gente, a correnteza vai levando o povo. Voltei a sentir medo, saída de estádio é sempre complicada. Vencedores e perdedores se provocam. Ônibus nem pensar. Táxi todos ocupados. Depois de 20 minutos achei vaga num coletivo e fui pra rodoviária. Cheguei às 19:14h e vi no painel que às 19:15h tinham um ônibus saindo pra São Paulo.

Cruzei a rodoviária feito Léo Moura invadindo a zaga vascaína. Consegui chegar a tempo. A passagem de R$75,00 dá direito a um saquinho com biscoitos e um suco. Minha salvação, o primeiro lanche do dia. Deitei e relaxei relembrando os lances da partida. Chegando à rodoviária de São Paulo, foi só esperar mais quatro horas no chão até o metrô começar a operar.

Já em casa, deitado na cama, poucos segundos antes de dormir, a conclusão que cheguei é que viajar sozinho de São Paulo pro Rio, só pra vê o Flamengo jogar, é uma loucura. Mas afinal de contas, valeu a pena: Flamengo vence de virada e vai à decisão da Taça Guanabara 2008. Eu estava lá.
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Star Wars Exposição Brasil

Nessa semana fui visitar "Star Wars Exposição Brasil", no Porão das Artes da Bienal, no Ibirapuera, em São Paulo. O mundo nerd não fala de outra coisa. Eu nem queria ir, o ingresso custa R$30. Inaceitável. Paguei R$4 para ir ao Museu da Língua Portuguesa, R$4 para visitar o Museu do Ipiranga e entrei de graça na Pinacoteca. Por que pagar R$30 para vê roupas velhas e naves em miniatura que nem pertencem à nossa cultura?

Star Wars Exposição Brasil

Explico, mas não justifico: a exposição começou a circular o mundo em 2007, comemorando os 30 anos do início da saga Star Wars, filme do diretor George Lucas que mudaria para sempre o conceito visual de ficção científica. Sou apaixonado por Star Wars e seus projetos paralelos. Vale lembrar que essa é a primeira vez que a América Latina recebe a exposição, que reúne um acervo de mais de 200 peças originais de Lucasfilm utilizados nas produções da série.

Na Bienal, antes de entrar, de longe já dava pra enxergar a logomarca de Star Wars. Tinham umas garotas com blusas da exposição recebendo os visitantes. Entrei. Um túnel preto serviu para aumentar o friozinho na barriga. De cara o visitante vê um caça Jedi Starfighter (usado em "Episódio III"). Até o pobre do R2D2 estava lá, pendurado na asa. Uma projeção com letreiro ao estilo da série contava um breve relato da exposição. O local é bem escuro, acho que o objetivo era fazer o visitante sentir-se tripulante de uma nave interestelar.

Star Wars Exposição Brasil

Passamos então por um corredor bem iluminado. Nas paredes uma linha do tempo mostra os principais acontecimentos que fazem parte da história dos seis filmes. No lado oposto uma bancada de vidro com imagens e algumas miniaturas de naves e personagens. Na sala seguinte planetas suspensos dão um ar místico ao ambiente. Dentro de cúpulas de vidro, algumas naves em tamanho real, tais como: Airspeeder (do "Episódio II"), Podracer (do "Episódio I") e Imperial Speeder Bike (do "Episódio VI").

Bonecos vestidos com os personagens também chamam atenção. Os mais legais são Chewbacca, Han Solo, Boba Fett, Luke Skywalker, além, claro, do pequeno Anakin. Outro ponto forte é a chance de analisar detalhadamente os primeiros rabiscos de George Lucas. Muito interessante a maneira como ele imaginava os personagens e como ia mudando-os com o tempo. O Mestre Yoda nos primeiros desenhos parecia um gremlin. O Chewbacca era magro, depois ganhou uma barriga-de-chopp. Genial.

A exposição também conta com uma série de maquetes das naves usadas nas batalhas. Entre elas: Millennium Falcon (de Han Solo), Imperial Star Destroyer (comandada por Darth Vader), AT-AT Imperial Walker e Rebel X-Wing. Passando por um curto corredor escuro, o visitante entra no coração da exposição: a sala do Império. Frente à entrada C-3PO brilha como ninguém. Nas suas costas o inseparável R2D2. Dizem que o ator que interpretou o primeiro esteve dando autógrafos na estréia da mostra. Perdi essa.

Star Wars Exposição Brasil

A sala imperial também conta com sabres de luz de todos os jedis e siths. Os figurinos usados por Padmé Amidala dominam a metade do ambiente. No topo uma projeção estilizada do Mestre Yoda, igualzinho ao "Retorno de Jedi". No lado oposto Darth Maul, Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker (fase dark) em cúpulas, como se estivessem congelados, esperando um momento certo de acordar.

Mas faltava alguém... Vader, Lord Darth Vader. De longe o visitante já escuta a trilha sonora do império. Ao fundo um estranho ruído. Lentamente caminhei em sua direção. Era uma espécie de respiração abafada. Fiquei na espreita, dando cobertura pra um garoto de uns 10 anos. O coitado parecia está com muito medo. O local parece um mausoléu: frio, escuro e arrepiante. O lado negro da força vive, pulsa, chama. É contagiante. Por trás do vidro as vestimentas do maior vilão da história do cinema. Era o fim da exposição.

Star Wars Exposição Brasil

Na saída ainda passei numa lojinha com sabres coloridos, revistas, camisetas e bonecos. Pena que tenha faltado atores vestidos como os personagens. Fiquei sabendo depois por amigos que a produção do evento contratou alguns, mas esses ficam por pouco tempo na mostra. Também faltaram locais específicos para fotos, como ao lado das máscaras dos alienígenas. Em resumo: interatividade zero. Agregado a isso: naves muito pequenas, roupas desgastadas e personagens sem cara e espírito, também ajudaram a deixar certo gostinho de decepção. A Força esteve conosco, mas não no meio de nós.
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